sábado, 29 de outubro de 2016

Uma viagem inesquecível no Trem da Leopoldina.


Todos nós temos uma grande história pra contar, não é?

Trago aos amigos leitores uma grande recordação de minha infância: uma viagem inesquecível com toda a minha família para o Rio de Janeiro no Trem da Leopoldina.
Uma grande turma que saiu da Estação de Bicas-MG para comemorar o aniversário de minha avó, vivenciando alegrias e travessuras numa grande aventura!

Presente do amigo Carlos Latuff, a velha Maria Fumaça nas serras de Bicas.

"No já distante ano de 1971, meu Avô José Mayrink, condutor ferroviário na Estrada de Ferro Leopoldina e minha Avó Maria Mayrink, por contingências naturais da profissão dele, resolveram mudar-se para o Estado o Rio, mais precisamente Jardim Primavera, no Município de Duque de Caxias. Seus filhos já casados ficaram em Bicas, Minas Gerais. 
Final do mês de julho, início de inverno e das férias escolares. Reuniram-se meu Pai, José Carlos Mayrink, também ferroviário com minha Mãe Lydia Dousseau Duque Mayrink (três filhos), suas irmãs Teresinha Mayrink Martins (sete filhos) e Stela Mayrink Soares (dois filhos) e seus cunhados Sebastião Martins e Marks Soares para preparar uma grande surpresa para minha Avó Maria Mayrink, que aniversariava naqueles dias: Ir todos - as três famílias - festejarem juntos, o aniversário dela no lá no Rio.
Naquele tempo era sem dúvida uma grande aventura, já que eram doze crianças sendo quatro com menos de dois anos e dois recém-nascidos. Lógico que o fato de nosso Avô ser ferroviário – e também meu Pai – contribuiu, e muito, para viabilizar passagens a todos, já que se vivia com muita dificuldade. Seria no famoso Noturno, que cortava parte da Zona da Mata mineira e o Estado do Rio durante toda a noite e madrugada, chegando ao amanhecer na cidade de Duque de Caxias.
Tudo combinado... chegava o grande dia! A realização do sonho de todas aquelas crianças, uma viagem de trem. E que viagem! Todos eufóricos e com grande expectativa! Rosa Maria, Sônia e Marly, as netas mais velhas da turma cuidavam de comandar os demais. Não precisa dizer que as três famílias (dezoito passageiros) tomaram quase todo o vagão, com as crianças disputando as janelas.
O apito da Maria-Fumaça avisava que estávamos de partida. Começava a viagem. E cadê que a criançada dormia? Tudo era motivo de deslumbramento. Céu estrelado. Noite linda! O trem ia cortando as montanhas de Minas. Vento no rosto, apesar do frio, e a paisagem escura da noite iluminada por vaga-lumes. Nossos pais conversavam assuntos diversos enquanto nossas mães cuidavam de ilustrar nossas fantasias, lembrando que era época das festas juninas e que os céus do Rio ficavam povoados de balões.
Em Três Rios, trocava-se a locomotiva. Saía a Maria-Fumaça, entrava uma Diesel e nossa aventura continuava. Não sei precisar o motivo, mas o fato é que no meio da madrugada o trem parou e ali ficamos por mais de uma hora sem nenhuma estação por perto. E toma de histórias e músicas para distrair a criançada que não queria saber de dormir. Bebês choravam, mães amamentavam. A essa altura, os poucos passageiros que não eram da família já haviam buscado lugar em outro vagão. E a criançada fazia festa, podíamos escolher lugar. De repente, aquela sacudida. Era o trem reiniciando a viagem para o alívio de nossos preocupados pais. A criançada? Ah, a turma não estava nem ali para preocupações. Tudo era festa!
Miguel Pereira, Governador Portela e chegávamos a serra. E toma de descer! O trem rangendo trilhos, as luzinhas das cidades ainda distantes brilhavam como vaga-lumes lá em baixo e toda hora vinha a mesma pergunta: tá chegando no Rio? E ia descendo, ia descendo... A molecada ali, acesa vibrando com cada instante naquele passeio maravilhoso.
Amanhecia o dia quando chegamos a Duque de Caxias. Saltamos todos para tomar outro trem, este de subúrbio, também puxado a máquina e com os mesmos vagões de madeira. Já estava claro quando chegamos a Jardim Primavera. Nem precisa dizer o quanto foi feliz o encontro com nossos avós, a festa de aniversário e o mais bonito céu que já havíamos visto: além das estrelas, estava repleto de pequenas luzes amarelinhas dos balões de que tanto ouvíamos falar e cantar.
Uma viagem que marcou para sempre a vida de todos. Em especial daquela criançada maravilhosa que realizou o grande sonho de viajar de trem. De ver a Maria-Fumaça e ouvir um dos mais belos e românticos barulhos que uma máquina pode produzir. Eu e todas aquelas crianças estamos hoje com idade entre 40 e 60 anos, mas o silvo maravilhoso do apito da Maria-Fumaça ainda soa em nossos ouvidos como se tudo tivesse acontecendo agora, belo, romântico, simplesmente maravilhoso!"

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