sábado, 17 de março de 2012

Uma viagem do Rio a Petrópolis – Carl Von Koseritz.


Recebi do amigo Antonio Pastori, pesquisador ferroviarista e membro da AFPF, e-mail contendo um texto histórico, uma carta de Carl Von Koseritz relatando uma viagem do Rio de Janeiro a Petrópolis. Trata-se de um relato detalhado dos encantos de uma viagem realizada em 1883 que, quem sabe, poderemos realizar em breve com a reabertura da antiga ferrovia e experimentar os mesmos sentimentos:

(*) Carl von Koseritz nasceu em Dessau, Alemanha, em 1830 e faleceu no Rio Grande do Sul, a 30 de maio de 1890. Chegou ao Brasil, com 21 anos, engajado como canhoneiro do 2.º Regimento de Artilharia, tropa mercenária organizada por Sebastião do Rego Barros para o serviço do Império. Fixou-se no Sul, de onde só deveria voltar 32 anos depois, já transformado na principal personalidade da colônia alemã e num jornalista e político com grande prestígio. O  texto a seguir, datado de 12 de maio de 1883, foi publicado originalmente na Alemanha, em 1885, no livro "Bilder aus Brasilien",  traduzido e publicado no Brasil como "Imagens do Brasil",  Editora da Universidade de São Paulo, 1972, Biblioteca Histórica Brasileira, tradução, prefácio e notas de Afonso Arinos de Melo Franco.

 “A 8 deste mês, pelas 3 horas da tarde, achava-me, com o amigo Jansen, a bordo do vapor que conduz os passageiros através da baía (1) até Mauá (2). Eu tinha audiência com o Imperador em Petrópolis e, com isto, poderia conhecer a famosa residência de verão da Corte, Tusculum (3) da aristocracia local e retiro do nosso mundo diplomático. Os navios são do sistema ferry, muito amplos e providos de boas comodidades; a única diferença é que eles possuem refeitório e uma excelente cozinha.
Parte-se da Prainha (4) e toma-se a passagem até Petrópolis. O senhor Lucas, autêntico nativo da Mosela, que reside em Petrópolis desde 1846, onde é famoso como cozinheiro e guia de estrangeiros, assumiu da forma a mais amável o cuidado das nossas bagagens e eu pude me entregar completamente ao gozo do soberbo panorama oferecido pelo Porto do Rio. À nossa direita estavam, no alto do morro, o Convento dos Beneditinos, a Ilha das Cobras com as suas docas e estaleiros, o grande Arsenal da Marinha, com suas numerosas Oficinas; à esquerda os navios mercantes, no chamado “poço”, e, diante de nós, os gigantescos vapores das linhas transatlânticas. Ali se achava, por exemplo, o “Gironde”, pronto para partir, e não era sem uma certa tristeza que eu via o palácio flutuante que, em menos de um mês, poderia conduzir-me à “clara polidez da Europa” e aos braços de alguns entes caros de quem já me encontro afastado há 33 anos, espaço de uma vida humana. Mas isto não adianta e eu já aprendi a declinar a palavra “paciência” em todos os seus casos. Passemos, porem, diante do “Gironde” e abandonemos as idéias tristes; o homem pertence ao momento e este nos conduz a Petrópolis, e à residência do Imperador.
A viagem pela baía é linda; as ilhas do Governador, Paquetá e todas as demais oferecem aos olhos belíssimos cenários, em contínuo movimento. Os últimos momentos da travessia foram perdidos, para mim, no que diz respeito à vista, pois o amigo Jansen, com apetite devorador, reclamou peixes e outras miudezas, que nos foram servidas realmente na melhor forma. Ainda não tínhamos engolido o último bocado e já estávamos chegando ao pequeno porto de Mauá, de onde a primeira estrada de ferro construída no Brasil (que tem o nome do seu fundador, o Visconde de Mauá), nos devia conduzir até à Raiz da Serra, exatamente em baixo da escarpada parede rochosa da Serra dos Órgãos, em cujo platô se encontra Petrópolis.
A estrada é excelente; os trilhos se acham sobre dormentes de ferro e viaja-se como numa cadeira de balanço. Os vagões são grandes e largos, muito cômodos; tudo é confortável, e a velocidade da viagem surpreende quando se está habituado à ridicularia da nossa Estrada Leopoldense (5). Em grande velocidade atravessamos a parte baixa, pantanosa e insalubre, onde grassa sempre a febre palustre e logo entramos na estação de Irajá (6),  de onde em cerca de 15 minutos se vai à simpática aldeia de Raiz da Serra.
“Devo acentuar que não foi sem uma sensação de medo que divisei a negra parede montanhosa, alta de 800 metros que se elevava abruptamente, e cujos cumes estavam coroados de nuvens. E nós devíamos subir, por estrada de ferro, até lá em cima, no meio das nuvens. Eu tinha uma certa dúvida sobre se chegaríamos com os ossos completos lá no alto dos morros, naquela cidade de nuvens ... Lá estava, contudo, o trem, e centenas de passageiros se ajuntaram nos grandes e elegantes vagões, com duas ordens de assentos duplos, segundo o sistema americano.
“O que os outros podem, também nós podemos, e, assim, logo nos encontramos muito comodamente instalados em um vagão de primeira classe (7). Pouco depois o monstro da locomotiva começou a soprar e fazer barulho, lançou um estridente apito e foi morro acima, sempre em ladeiras de 15 por cento. No entanto esta colossal subida era dominada por uma máquina (que era das mais fortes), não com facilidade, mas, em todo caso, era dominada. As máquinas ficam atrás dos trens e os empurram serra acima com força gigantesca, sustentadas por cremalheiras e rodas denteadas. E agora subimos sem cessar: rochedos selvagens, florestas escuras, grandes precipícios nos cercam; mas o nosso trem progride sempre e vence todos os obstáculos. Súbito abre-se para nós uma bela vista sobre o vale onde fica a Raiz da Serra. Ao nosso lado, freqüentemente cortada pela estrada de ferro, corre em curvas caprichosas a estrada de rodagem “União e Indústria”, pela qual se fazia antigamente o tráfego por diligências, único existente para Petrópolis. (8) Também esta estrada, que vai até Entre-Rios (9) é uma verdadeira obra de arte e custou milhões; antigamente ela foi uma espécie de maravilha do mundo para o Brasil, mas hoje desaparece ao lado do poderoso trabalho do caminho de ferro, que o sr. Taaffe construiu como empreiteiro, depois de vencer enormes dificuldades.
“No meio da subida se encontra a antiga fábrica de papel do Barão de Capanema, outra empresa abandonada. Está lindamente situada, e atrás dela se levantam os rochedos dos Órgãos em plena nudez, o que não é inconveniente para um rochedo. E a máquina geme cada vez mais alto e cada vez mais longe se esgueira o trem pelas montanhas acima, por entre os gigantescos rochedos. Cada vez mais se aproximavam os cumes dos montes, que antes me pareciam inatingíveis e cada vez mais perto chegávamos nós do manto de nuvens. Os precipícios dos dois lados estavam mais negros, selvagens torrentes de montanha saltavam em baixo sobre as pedras: é um cenário majestoso. Finalmente chegamos à Cidade das Nuvens, isto é, no Alto da Serra e no meio de uma névoa que não nos deixava ver um palmo adiante do nariz. O caminho vai agora em nível, o trem corre mais depressa e a máquina geme menos alto. De repente, um apito: estamos na Vila Teresa, isto é, chegamos ao Palatinado. Aí desatrelamos, ou melhor, a máquina que nos empurrou tinha cumprido o seu dever e podia se afastar; foi ligada uma outra na frente que nos fez seguir viagem a toda velocidade. Diante de nós se estendia o bonito vale do Palatinado, com a suas casas de colonos. Louras crianças brincavam diante delas, carros alemães conduziam frutas, mulheres alemãs voltavam do trabalho. Senti-me em casa. São os meus bravos camponeses do Rio Grande, pensei de mim para comigo e gritei-lhes do trem um “boa tarde!” Mas já está tocando o sino: chegamos à estação da Cidade Imperial e saltamos. Esta é uma verdadeira cidade Imperial, uma cidade de palácios... Uma população elegante se acotovela na estação; ligeiros “cabs”, puxados por cavalos de raça, são guiados por senhoras; esbeltos cavaleiros caracolam sobre lindos meio-sangues, seguidos por servidores agaloados. Mais adiante está o Carro Imperial de seis cavalos. Nele se encontram o Imperador e a sua família.
“Mas já escurece, e não nos resta tempo para ver tudo. Tomamos um carro e partimos rapidamente para o Grande Hotel Bragança (10), onde reservamos quarto e, em seguida, nos apressamos em ir jantar com o Comendador Frederico Roxo, em cuja casa morava o genro de Jansen e onde estávamos sendo esperados. Um finíssimo jantar, um serviço brilhante, uma conversa cheia de espírito -- coração, que mais queres?
“Assim passaram rapidamente as horas, e já eram as 11 quando subimos no carro e voltamos para o hotel, onde procuramos a nossa cama, a fim de nos repousarmos para as dores e alegrias do dia seguinte.
    Na manhã seguinte tomei ainda (a 10º R) (11) um banho de chuveiro magnificamente refrescante, em seguida tomamos café e tocamos para a Estação. No carro encontrei Quintino Bocaiúva, meu velho colega, o príncipe dos jornalistas brasileiros, com o qual me tenho tido de haver várias vezes, em boas e más circunstâncias. Alegramo-nos ambos de, afinal, nos podermos conhecer pessoalmente, tomamos juntos um coupé, e logo nos perdemos numa conversa sobre as condições locais da imprensa, que são, aliás, bastante tristes. Vamos novamente Serra abaixo. Em Vila-Teresa encontramos, outra vez, o monstro ofegante, a Locomotiva de montanha, que, na viagem de descida, em vez de empurrar, apóia, e impede, tanto quanto necessário, a marcha do Trem. Na verdade não é nenhuma viagem tranqüilizante, mas desde Janeiro que ela é feita diariamente por duas vezes, sem qualquer acidente. Daí a pouco estávamos de novo em Raiz da Serra, deixando atrás de nós a escarpada parede de montanhas. Ainda uma curta viagem pela Estrada de Ferro Mauá (12), e o vapor nos recolheu novamente, para nos conduzir ao Rio, cujos contornos já se mostravam, diante de nós, por entre a névoa. Estava de novo quente, transpirava-se apesar da brisa marinha, depois de termos estado em Petrópolis a 10º R. Como eu devia ir ao Ministério depois da nossa chegada, almoçamos a bordo, aliás, muito satisfatoriamente. Depois do almoço entretive-me, ainda, um pouco, com os Srs. Kinglelhofer, Quintino Bocaiúva e o mordomo do Imperador, Conselheiro Archer e, dentro em pouco, desembarcamos na Prainha. O Rio nos recebia com o seu mau cheiro, particularmente sensível naquela parte suja da cidade. Estavam acabados os belos dias de Aranjuez-Petrópolis...”
(1)  Baía da Guanabara (RJ)
(2)  Atual município de Magé (RJ)
(3)  Um local de vilegiatura para os ricos da antiga Roma
(4)  Porto do Rio de Janeiro, próximo à atual Praça Mauá, no centro da cidade
(5)  Referência à EF Porto Alegre-São Leopoldo
(6)   Estação de Fragoso. Certamente confusão do autor.
(7)  Em Raiz da Serra se fazia a baldeação da linha da baixada para a linha da cremalheira, o que era novamente feito na estação do Alto da Serra, onde a linha chegava à entrada da cidade de Petrópolis
(8)  A “União e Indústria”, a rigor, somente se iniciava em Petrópolis para chegar a Juiz de Fora (MG). Na serra ela não teria este nome. Essa estrada existia desde 1860
(9)  Entre-Rios era o nome da atual Três Rios (RJ)
(10)      O Grande Hotel Bragança não existe mais e ficava na antiga rua do Imperador, hoje 15 de Novembro
(11)      ºR, ou graus Reaumir, medida de temperatura hoje pouquíssimo utilizada.
(12)      A Estrada de Ferro Mauá, ou seja, o trecho entre o porto de Mauá e a Raiz da Serra, seria vendida definitivamente para a EF Príncipe do Grão-Pará seis dias depois da data do relato de Koseritz. A Grão-Pará era, naquele momento, somente o trecho da Raiz da Serra a Petrópolis. O trecho da serra estava funcionando havia apenas três meses quando da viagem de Carl. 
Antonio Pastori

Saiba mais sobre a AFPF  em: 
http://www.trembrasil.org.br/




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