Matéria
atualizada em 09 de julho de 2022.
Trago
hoje aos amigos da página otremexpresso um pouco do maravilhoso trabalho em
desenho e arte em retratos, paisagens, charges, cartuns, caricaturas, HQ’s e
arte final de Wilson PS.
Naturalmente
destacamos seus belíssimos trabalhos com motivos ferroviários: Trens e
Estações, especialmente da Estrada de Ferro Leopoldina.
Além
dos desenhos fantásticos, Wilson traz um belíssimo relato de sua experiência de
vida, especialmente acompanhando seu Pai desde criança.
Então...
vamos ao seu relato fantástico e aos belíssimos desenhos!
Lembranças de um tempo, Por Wilson PS.
Parece surreal, mas é fato, por isso passo a relatar: Morando eu a maior parte de minha infância e juventude dentro de um pátio ferroviário de intenso movimento, bem ao lado das vias principais onde o tráfego de trens de todos os tipos principalmente os suburbanos era ininterrupto, meu ouvido aguçado como de um futuro telegrafista, e olhos observadores de um desenhista que o não permite escapar detalhe algum, e como o paladar de um degustador profissional sempre em ação vinte e quatro horas por dia a provar um requintado quitute, tinha uma hiper percepção.
Sabia qual, ou que tipo de material rodante vinha num comboio mixto ou convencional, fosse ele um trem curto ou um extenso comboio de cargas com variados tipos e modelos de vagões, ou carros. Percebia tudo isso pelo tipo de rodeiro e seus sons e ruídos em contato com os trilhos, o motor das MKS, as buzinas, etc... cada um tinha um som ímpar. Podia ser diesel elétrica ou algumas vaporosas (na minha infância, isso até aos 8 ou 9 anos apenas uma Pacific, a 345 se não me engano, ela era fixa em Saracuruna e fazia os trens de Vp, as vezes gôndolas com trilhos e dormentes, guindastinhos para o recolhimento de trilhos, ou vagões de lastros vindos da pedreira de Suruí. A 344 de vez em quando aparecia, e até a 51 com sua chaminé balão, em pequenos trens de serviço, belas lembranças.
Um trem de passageiros com todos
os carros iguais, de madeira ou de aço, era de mais fácil identificação, mas a
locomotiva sempre variava, podia ser uma U-12, U-13, GL-8, U-8 ou U-10.
As U-20 vieram bem depois, em
1974, com suas buzinas originais inconfundíveis, quem lembra? Ela vinha puxando
um "comboio interminável" nada comparável aos nossos dias, aquele
tempo impressionava.
Quando passava um
"Material" vindo de Campos para Praia Formosa, meu pai dizia: vai
reforçar o "Expresso" ou o "Cacique", ou talvez formar um
extra. Em ocasião festiva - Natal, ano novo, carnaval, feriados, a demanda
acrescia e a Leopoldina estava atenta.
As litorinas Budd tinham um som peculiar,
sua buzina como uma voz suave e bela pedindo passagem atraindo olhares, como
pode? Toda prateada e reluzente, com janelas oblongas, freios a disco e ar
condicionado; naqueles tempos?
É minha gente! As ferrovias eram
tudo de bom, pararam no tempo, ficaram pra trás, perderam-se no descaso e
entraram em ostracismo. Só uma nova mentalidade recupera tudo isso... São novos
tempos.
Eu sabia sem olhar, reconhecia
pelos ouvidos quando o trem de socorro passava ligeiro pela linha principal
para atender uma ocorrência ao longo do trecho ou quando vagaroso traspassava
os desvios do pátio. Adorava ver o robusto ORTON da minha querida Leopoldina em
ação ostentando sua enorme lança preta.
Quanta saudade daqueles tempos!
Podia embarcar num trem para
qualquer canto onde os trilhos da Leopoldina pudessem me levar, adorava ir às
estações com meu pai e vê-lo bater papo com os "Companheiros" de
plantão. Os caras tinham apelidos inusitados, parecia um zoológico ferroviário,
tinha o Arlindo “Jacaré”, o Jacintho “boi de chuteiras”, o “cabeça de cobra”, o
“pé de porco”, o João “carijó”, Ari “pé de pato”, o Paulo “galo”, o Zé “lagarto”,
o “lagartixa”, o Mário “barata”, o Ari “calango”, o Silvio “vaca malhada”,
Almir “lobisomem”, “Mussum casado”, “Bode cheiroso”, “Burro novo”, João “da
mula”, Pedro “burro”, Zé “macaco”, “Pato rouco”, “Marimbondo”, Wanderley "raposo", “Pescoço de girafa”, Tião “gavião”, “Caçador de veados”, “Urso do cabelo duro”,
“Parafuso”, Francisco “quebra galho”, “Joinha”, “Aroeira”, Nestor “raibota”, “Sheriff”,
João “quebra pratos”, “Vampiro sem dentes”, “Espanta neném”, “Mussela”, Jorge “lingüiça”,
Sebastião leite, Breguetti, “Nó de cana”, “Maçaranduba”, “Fomfom”, Salvador, “Bom
cabelo”, “Blusão de couro” (meu pai) e outros.
Toda oportunidade ia para Barão de Mauá, onde meu pai trabalhava, era frisson. Parecia um Shopping Center dos trilhos, gostava mais que a gare Dom Pedro II. Que movimento! Hoje um deserto, um fétido odor de mijo e fezes exala a maltratar quem se atreve a aproxima-se do local. Pichações horrorosas, um lugar sombrio, reduto de vagabundos.
Uma beleza de estação de convergência de trens de passageiros e
cargas, erguida pelos ingleses de uma era de glamour e ostentações, onde a
expansão ferroviária era tudo de bom, tudo perdido pela incompetência e má
vontade.
Incansável, o belo terminal,
mesmo maltratado resiste, insiste em mostrar sua beleza e grandeza, e orgulho
de seus tempos de glória... Glória!!! Que
glória?
Um raro exemplar da arquitetura
palaciana, um terminal ferroviário ocioso em pleno centro.
Em Barão de Mauá eu observava
todo o movimento, em cada plataforma, e onde meus olhos podiam contemplar
tamanha maravilha da capacidade humana.
Os sons, os ruídos, para mim, uma
perfeita sinfonia dos trilhos, onde o maestro era o ilustre maquinista. Mas que
triste fim, acabaram com todo brilho, arrancaram os trilhos.
O meu sonho é que todas as
ferrovias históricas pudessem ressurgir...
Destacamos
também sua grande admiração pelo trabalho das Equipes de Socorro, fato
observado nos belos desenhos sobre este tema.